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Os desafios de informar sobre trabalho forçado e recrutamento justo

6 Maio 2021

A OIT desenvolveu um novo recurso para que os jornalistas possam informar com precisão sobre o trabalho forçado e o recrutamento justo, elaborado por Kevin Burden e Charles Autheman. Eles nos contaram sobre os desafios enfrentados pelos jornalistas ao relatar sobre tópicos tão sensíveis e como este kit de ferramentas pode ajudar.

©lisakristine.com

A OIT lançou recentemente um novo recurso: Informar sobre o trabalho forçado e o recrutamento justo: Um kit de ferramentas da OIT para jornalistas (também disponível em francês, espanhol e árabe). O trabalho forçado e o recrutamento justo são temas sensíveis que apresentam muitos desafios para os jornalistas que desejam enfrentá-los. Algumas semanas após termos comemorado as primeiras 50 ratificações do Protocolo da OIT sobre o Trabalho Forçado, discutimos com Charles Autheman e Kevin Burden, que desenvolveram o instrumento. Eles nos explicaram como esta ferramenta de treinamento interativo fornece aos jornalistas, estudantes e outros profissionais interessados, orientação sobre como superar estes desafios e informar com precisão e eficácia sobre o trabalho forçado.

   
Kevin Burden Charles Autheman

50 for Freedom (50FF): Charles, Kevin, vocês que são os co-autores deste kit de ferramentas, podem nos dizer como suas respectivas experiências são complementares?

Charles Autheman (CA): Trabalho no setor do apoio ao desenvolvimento desde minha graduação, há pouco mais de uma década, e gradualmente me especializei em como os jornalistas informam sobre questões ligadas ao trabalho e à migração. Organizando e facilitando programas de treinamento em todo o mundo, conheci centenas de jornalistas, muitos dos quais compartilharam idéias interessantes sobre a melhor forma de informar sobre essas questões.

Kevin Burden (KB): Eu sou jornalista e professor de jornalismo. Meu objetivo é elevar os padrões de informação na mídia, especialmente em questões de direitos humanos, sociais e ambientais. Fui convidado a me envolver devido ao meu trabalho com a Federação Internacional de Jornalistas. Não sou especialista em questões trabalhistas ou de migração, mas sinto fortemente que o trabalho forçado e o recrutamento justo são questões importantes para a mídia.

50FF: Kevin, você tem experiência em trabalhar com jornalistas em questões da atualidade importantes, como as mudanças climáticas ou os direitos humanos. Por que você acha que questões como trabalho forçado e recrutamento justo são importantes para os jornalistas?

KB: Há um ditado que diz que notícia é algo que alguém, em algum lugar, não quer que você saiba – e todo o resto é mera propaganda. Obviamente é uma simplificação excessiva, mas eu acredito que o jornalismo tem um propósito. Deve ser sobre explorar as escolhas que a sociedade faz e examinar as conseqüências dessas decisões. O jornalismo deveria destacar onde as coisas estão dando errado na sociedade. Quero que as pessoas saibam que a pessoa que está fazendo as unhas pode ser forçada a estar lá – ou que suas roupas ou café ou chocolate são produzidos por trabalhadores cujos direitos trabalhistas e fundamentais estão sendo violados. O público só pode tomar decisões adequadas sobre o que compra, como se comporta e como vota, quando é devidamente informado.

50FF: Charles, com base em sua experiência, conte-nos sobre alguns dos desafios que os jornalistas enfrentam ao informar sobre o trabalho forçado.

CA: Quando os estudos acompanham a forma como os jornalistas relatam a migração, as conclusões apontam para armadilhas frequentes: estereótipos são comuns, terminologia apropriada não está sendo usada de forma consistente e faltam vozes migrantes. Minha experiência no campo me levou a pensar que vários fatores podem explicar esta situação. Para jornalistas com pouca experiência ou formação em migração, muitas vezes é difícil adquirir todo esse conhecimento, especialmente com a pressão do tempo para concluir suas reportagens. Além disso, a realização de um trabalho de reportagem fora das fronteiras pode ser cara e muitos meios de comunicação carecem de recursos para cobrir essas despesas. Finalmente, os editores podem ver a migração de mão-de-obra como um tema sensível e os repórteres às vezes expressam uma falta de apoio editorial para suas matérias. Questões semelhantes podem ser observadas com o trabalho forçado.

O trabalho forçado é também um fenômeno complexo com várias dimensões subjacentes: econômica, cultural, política ou jurídica. O trabalho forçado acontece a portas fechadas, envolvendo pessoas que estão física, social, cultural, lingüística e economicamente isoladas. Elas têm medo de falar e estão mal preparadas para fazê-lo. Eles não têm acesso às redes tradicionais de apoio. O crime – e até mesmo a corrupção – também estão frequentemente envolvidos, o que aumenta o perigo para os jornalistas que investigam o assunto.

50FF: O kit de ferramentas dedica uma seção importante à segurança e proteção dos jornalistas. A cobertura do trabalho forçado é perigosa?

KB: É um fato triste que mais jornalistas são mortos porque revelam crimes do que na cobertura de guerras e conflitos armados. As pessoas que exploram a miséria de outros seres humanos não têm medo de intimidar, ameaçar e até mesmo matar jornalistas que procuram expor seus crimes. Pior ainda, muitas vezes não são condenados, mesmo por assassinatos. Isso porque um crime organizado tão grave não pode ocorrer a menos que as autoridades policiais sejam de alguma forma cúmplices ou, pelo menos, fechem os olhos.

A denúncia de violações dos direitos humanos, como o trabalho forçado, é um trabalho perigoso. Por isso, damos conselhos no kit de ferramentas aos jornalistas sobre como eles devem realizar investigações de forma segura, confiável, legal e ética. Nenhuma notícia vale o custo de uma vida humana – quer essa vida pertença a um jornalista ou a um informante.

50FF: O kit de ferramentas não se trata apenas de escrever sobre trabalho forçado, mas também de mostrar o trabalho forçado. Qual é o papel das imagens na informação sobre o trabalho forçado?

CA: As imagens têm um papel fundamental na formação da percepção pública, especialmente hoje em dia com o surgimento das mídias sociais. Ao elaborar o kit de ferramentas, procuramos vários fotojornalistas para entender melhor alguns dos desafios éticos que eles enfrentam ao tentar aumentar a conscientização sobre os abusos e ao mesmo tempo proteger as fontes de informação vulneráveis. Os conselhos que eles dão são preciosos e podem ser úteis para qualquer pessoa interessada em refletir como as imagens são utilizadas para ilustrar tais histórias.

Também recomendamos no kit de ferramentas considerar outras formas de arte e ilustração além da fotografia. Nos últimos anos vimos alguns trabalhos muito criativos utilizando animação, desenhos animados, ilustrações ou pinturas. Estas histórias ajudam o público a visualizar uma determinada situação sem expor ainda mais os sobreviventes do trabalho forçado.

50FF: Como o kit de ferramentas foi recebido? Você pode explicar como ele pode ter um impacto real?

KB: Precisávamos convencer primeiro os repórteres e seus editores de que o trabalho forçado é um assunto sobre o qual eles deveriam informar. E depois precisávamos mostrar a eles como fazer isso, de forma segura e eficaz. Então descobrimos que precisávamos defender a cobertura da questão, e talvez explicar sobre os desafios, sobre jornalismo investigativo, mais do que qualquer um de nós havia previsto no início do projeto. Falamos com muitos profissionais de destaque que compartilharam livremente suas experiências e conselhos. Jornalistas conversaram com jornalistas sobre jornalismo!

CA: Após a finalização do kit de ferramentas, estamos ativos promovendo-o e adaptando-o a diferentes contextos. Até onde sabemos, é o primeiro recurso pública e mundialmente disponível, aberto a todos os jornalistas. É gratuito e agora está disponível em vários idiomas e oferece edições nacionais, contextualizadas à situação específica de países como a Mongólia, Vietnã ou Paquistão. Estamos orgulhosos da nossa contribuição!

Para informar a comunidade de mídia em geral, temos organizado webinars e campanhas de mídia social e a recepção tem sido excelente. No Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas 2020 (30 de julho), organizamos um evento de âmbito mundial com profissionais da mídia, sociedade civil e representantes dos empregadores e dos trabalhadores. Mais recentemente, organizamos eventos similares em espanhol e árabe. Até o momento, já capacitamos mais de 360 jornalistas e estudantes de 25 países.

50FF: O kit de ferramentas foi elaborado antes da pandemia da COVID-19, você acha que as coisas mudaram desde então?

KB: A OIT documentou que a pandemia afeta particularmente as pessoas menos protetgidas, aumentando sua vulnerabilidade e levando a um crescimento do trabalho infantil e do trabalho forçado. No Reino Unido, vimos que um surto regional de COVID-19 foi rastreado até fábricas de vestuário, onde uma grande parte da força de trabalho migrante estava trabalhando em condições precárias, inseguras e frequentemente ilegais por menos do que o salário mínimo legal. Houve outros surtos relacionados ao processamento de alimentos, outra indústria que depende de uma grande força de trabalho migrante, de baixa remuneração. O vírus se espalha em espaços frios, fechados e não ventilados.

A pandemia certamente afetou a capacidade da mídia de realizar investigações. Os repórteres estão trabalhando de casa e não podem viajar livremente. E quando as receitas caem, como fizeram de forma acentuada este ano, os meios de comunicação tendem a reduzir o jornalismo investigativo, que é um trabalho demorado e caro.

A necessidade de informar sobre o trabalho forçado não reduziu, mas a capacidade de realizá-lo sim.

 


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